A parashá desta semana se concentra na terceira geração de patriarcas e matriarcas do povo judeu e no drama épico que desvela de forma honesta e transparente a dualidade que é constituidora da natureza humana. Como uma epopeia primária, ao nível de Ilíada e Odisseia, Vaietsê narra a saga de um herói clássico, Jacó, da terra dos seus pais a uma terra alheia (Harán), seguido pelo seu retorno à terra dos seus pais. O paralelo desse movimento pessoal do herói pode ser visto também na narrativa grega pelo percurso de Aquiles, entre Esparta e Tróia, e de Ulisses, no retorno de Tróia à sua casa, a ilha de Ítaca.

A mesma comparação pode ser vista em relação às personagens femininas. Enquanto Helena e Penélope são as princesas frágeis que serão resgatadas pelo herói, Léa e Rachel são mulheres fortes, que compartilham o protagonismo dos seus destinos de uma maneira intensa. Sobre esses aspectos colocaremos nossa lupa e esperamos apreender algum ensinamento para nossas vidas, que se desenvolvem com uma janela temporal e espacial bastante longínqua à delas. 

Em termos culturais, tanto a narrativa grega quanto a hebraica são grandes referenciais da cultura do Ocidente, e apesar da estrutura literária ter muito em comum, a tradição judaica se orienta a uma visão de mundo e de ser humano muito diferentes da cultura helênica. A Torá expõe as fragilidades e mazelas das suas personagens, tanto ou mais que os seus feitos heróicos.

Em palavras da professora Suzana Chwarts, no seu curso sobre as Matriarcas do Povo Judeu, que acontece concomitante a esta leitura semanal, o relacionamento entre Jacó, Léa e Rachel conforma “um triângulo conturbado e aprisionador”. O binômio esterilidade e fertilidade, ou ainda maternidade e sexualidade, tecem uma trama de relações ambivalentes e complexas em qualquer dos vértices desse triângulo. 

Se olharmos as características pessoais de Jacó nessa relação amorosa, veremos que se revela um Jacó diferente ao apresentado na parashá anterior, quando ele é descrito em comparação com Esaú, seu irmão. Lá, ele é um jovem com aspecto delicado, enquanto Esaú é peludo e rústico; Jacó é caseiro, enquanto seu irmão é um caçador; Jacó é o protegido da sua mãe, enquanto Esaú é o preferido do pai. Em Vaietsê, Jacó já não está sob a proteção de Rebeca e sua atitude frente à vida se mostra bem diferente. Logo na chegada a Harán, ele remove a pedra que tampava o poço para que os animais que Raquel apascentava pudessem beber água – o que revela um Jacó viril e proativo (29:10). 

E assim como a apresentação dos irmãos Esaú e Jacó já mencionada aqui, os primeiros versículos que falarão sobre Léa e Rachel enfatizam as diferenças físicas de ambas: “Lea tinha olhos moles (inexpressivos), enquanto Rachel era bela e atraente” (29:17); Raquel era amada por Jacó, mas era estéril, enquanto Léa era desprezada, e tinha o ventre aberto. Mas apesar da descrição do narrador do texto bíblico parecer conduzir a um modelo semelhante ao visto entre Jacó e Esaú, cujas diferenças radicais marcam o relacionamento entre irmãos por uma intensa rivalidade e forte tensão, a rabina Sandy Eisenberg Sasso destaca uma outra forma de vivenciar as diferenças no caso das irmãs: Rachel e Léa constroem suas vidas na mesma tenda. 

Frente a um conflito com o irmão, Jacó foge, enquanto Rachel e Léa negociam. Rachel queria ser fértil e Léa queria ser amada. Como bem lembrou um jovem na CIP durante o último Cabalat Shabat, “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Mas o modo como essas duas matriarcas encontram para resolver o impasse que produzia angústia em ambas poderia ser traduzido em uma linguagem contemporânea como uma negociação de conflitos do tipo ganha-ganha. 

A narrativa do relacionamento entre as irmãs também chamou a atenção dos sábios da nossa tradição. Em um midrash em Eichá Rabá, compilado por volta do séc. VI, a matriarca abre seu coração diante de Deus (Rachel reza), e descreve a noite de núpcias do casamento de Jacó com sua irmã, quando deveria ser a sua própria:

“Mestre do Universo, você sabe que Jacó, seu servo, me amava muito e trabalhou por mim durante 7 anos para meu pai. E (…) meu pai elaborou um plano para que minha irmã trocasse de lugar comigo. E isto foi muito difícil para mim (…) engoli meu sofrimento e tive misericórdia de minha irmã para que ela não se envergonhasse em público. (…) eu agi com bondade amorosa para com ela e não tive ciúmes dela e não a envergonhei.” (Petichta 1:24)

Pela cultura da época, Rachel sabia a ruína que representaria para sua irmã que a mais nova se casasse primeiro. O próprio narrador deixa isso claro textualmente. A soma do texto bíblico com o preenchimento das lacunas trazido pelo Midrash nos explicita um relacionamento marcado por reconciliação e nutrição mútua. Lea entrega à irmã o medicamento fitoterápico que lhe ajudaria na concepção, enquanto Rachel compartilha o amor de Jacó com Léa por uma noite.

Portanto, retomando à epopeia grega, se Homero tivesse tido a sensibilidade do narrador do texto bíblico, talvez Helena e Penélope tivessem sido as verdadeiras heroínas da história. 

 

Shabat Shalom!

Kelita Cohen